Ouvi os primeiros foguetes à meia-noite em ponto. Chegou o Dia da Liberdade. Que nunca nos esqueçamos do que ‘ela’ representa e dos que lutaram para ‘a’ conquistar. Talvez agora, com tantas rotinas limitadas, haja quem acorde do sono cor-de-rosa em que se refugiava, forjando uma felicidade aparente e constante. Quanta falta de auto-estima, quanta insegurança e quanta incapacidade de assumir erros e ser-se simplesmente humano…

Há quem diga que o mundo e as pessoas mudaram. Não me parece tão linear. Algumas sim: revelaram o melhor de si, superaram todas as expectativas e provaram do que são feitas, mesmo tendo sido sempre colocadas em segundo plano por uma sociedade cega e injusta, que continua a não saber valorizar quem merece.

Outras só agiram em conformidade com o que parece ser um comportamento socialmente bem aceite. Tantos jogos de interesse misturados com atos de pura generosidade…
Continua a vigorar a lei do mais forte, não de pensamento ou inteligência, mas a que eleva a supremacia do poder. Não, nada mudou em termos de abuso, falta de sensibilidade e empatia.

O amanhã parecerá igual ao hoje e semelhante ao que foi ontem. Mas desenganemo-nos. O ontem é passado. O hoje é uma sombra. E o amanhã uma desconcertante incerteza. Não, não vai ficar tudo bem porque já não estava. Há uma necessidade premente de “glamourizar” a realidade. Prefere-se adulterar sentimentos, dissipá-los com recurso a técnicas sociais – na verdade anti-sociais, ou melhor dizendo: fingir.

Não, as pessoas que não eram fofinhas não se tornaram um doce. E as genuínas não precisam de provar nada a ninguém. Ajudam sempre e no anonimato porque, simplesmente, gostam de o fazer. Só se multiplicaram as peles de cordeiro: inofensivas por fora, mas vazias por dentro. Entram no rebanho, mas estão ansiosas para o deixar. São, apenas, movidas pelo impulso do que gostariam de ser. Na hora da verdade, revelam-se e o sabor é amargo.

Voltando à liberdade, sou e sempre serei uma “mulher de abril”. Fazia, hoje mesmo, uma nova revolução. Admiro imenso a lealdade, a partilha de ideais que façam renascer uma sociedade igualitária, a certeza de que vale a pena lutar por melhores dias e existe uma determinação imensurável para fazer acontecer.

Não me sinto totalmente livre. A liberdade continua a ser uma conquista diária. Mas eu vou continuar a ser revolucionária, hoje e sempre. Vivam os que acreditam e nunca desistem!