A primavera está insana, como já vem sendo habitual. O sol alterna com a chuva numa dança de egos, a que assistimos com alguma passividade. Março não permite aligeirar os agasalhos, ainda que alguns já tenham ido a banhos, por terras algarvias, nem que seja para compensar a viagem e enrijecer a pele – diz que faz bem (risos).

Dita a época que haja convívio familiar e padrinhos e afilhados aproveitem para se ver pessoalmente, trocando amêndoas e um ou outro presente. Por momentos, esquecem-se (talvez) as notificações impostas pelas redes sociais e ouvem-se vozes e risos. Ou será que se unem todos num círculo virtual de olhos vidrados em écrans? Ter-se-á tornado assustadoramente real o contacto presencial?…

Mais que o significado, o que parece interessar é existir um feriado à sexta feira – santa ou não, que permita viajar, comer e beber bem, vestir uma roupita da nova coleção, e tirar selfies, muitas selfies, em todos os momentos, para dizer ao mundo: sou feliz!
Ser simpático com toda a gente, desejando apenas coisas agradáveis, como se faz no Natal, completa o quadro. Fica bem e demonstra que, além de felizes, todos são boas pessoas. Até parece uma sociedade perfeita, mas não… é só manipuladamente construída em torno de percepções.

Quanto tempo perdido, quantas palavras por dizer olhos nos olhos, quantos abraços que já não voltam.
De repente, volto à infância e relembro: as longas viagens ao Alentejo para visitar os meus avós, os poemas recitados à lareira, o frio das manhãs e o sol da tarde entre mil e uma flores, o quanto era bom gritar de encontro ao vento, e SONHAR… ‘pequenas’ coisas que mesmo sob outras formas e emoções, para mim, continuam a fazer todo o sentido.
Fora de época, de imposições, de influências externas, repito para mim mesma: foca-te no que é essencial.