Tenho-o procurado nas ruas enfeitadas e iluminadas, na banda sonora que as embala melancolicamente, nos rostos fechados dos que se vão cruzando comigo… mas nem sinal. Insisti. E pensei que pudesse encontrá-lo nos meus sonhos, mais ou menos atribulados, ou quem sabe no impercetível e fugaz intervalo entre duas batidas cardíacas ou a separar profundas inspirações… mas nada! Nem mesmo perdido no nevoeiro denso desta manhã…

Por momentos, senti-me triste. Tive saudades. Estremeci. Percebi que “ele” não vai tropeçar em mim e nem adianta procurá-lo porque não está perdido. Sei que existe algures, num refúgio secreto que criou para se proteger, tal não foi a desilusão quando se deparou com falsas intenções e sentimentos farseados. E, pelo meio, ficaram oportunidades, pessoas… algumas com laços de sangue, outras com ligações de inigualável afinidade e cumplicidade.

“Ele” – o espírito de que todos falam, suposto sinónimo de paz, amor e solidariedade. Ouço e leio muitas palavras, vejo poucas ações, sinto pouco conteúdo e intenção. Estou cansada de natais de prendas, da exaltação de alegrias forçadas, de obrigações politicamente corretas, de sentir esta saudade melancólica de tempos mais genuínos.

E volto à minha infância. Revejo-me: na cozinha, a testar novas receitas num caos controlado e excitante, partilhando experiências e tarefas com a minha mãe e a minha irmã; a organizar e decorar o espaço, com a ajuda do meu pai; a embrulhar presentes de última hora, tentando fazer de cada um deles uma obra de arte (risos…); ou então no Alentejo, em frente à lareira, perto dos meus avós, dividida entre versos e roscas de comer e chorar por mais. Como não ter saudades do que é irrepetível?…

A pouco e pouco (ainda há tempo…), sei que a inquietação vai diminuir. É só mais um dia, como tantos outros. Dizem que é bom não ter expetativas – confere. E no meio disto tudo, nem que seja para provarmos a nós mesmos que somos corajosos, algo ou alguém nos pode surpreender (sem expetativas, sem expetativas – repito para mim mesma) e sermos, de repente, invadidos por “ele”. Quem sabe… esteja em nós, afinal.